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7 de novembro de 2010

pânico


Ave negra cujas asas escurece os céus
E os gritos atormentam as casas
Lançai os vossos olhares sobre essa cidade
Ateai fogo ao que for de papel

Ave negra, olhos de carvões
Pedras de gelo negras quase azuis
Rubi no peito flamejante que cega e seduz
Bico de seta
Ouvi a minha prece

Ave negra que espanta os outros pássaros
E se alimenta de pombos brancos
Mostrai suas garras as redes dos postes
Fechai curto-circuito na alta tensão

Ave negra, de todas, a mais verdadeira
A menos dada a orações e a outras besteiras
Apagai os lampiões, aquecei as geladeiras
Calai os sermões, adoçai os limões, derrubai as mangueiras

Ave negra, que oculta e apaga estrelas
E cujas penas luz alguma reflete
Derrubai os velhinhos de muleta
E quem com vós se mete, apareça

Ave negra, e quem a vós for avessa
Que essa pessoa se esqueça
Entre as árvores na floresta
Então, sejais ainda mais negra pra que ela se perca
E padeça no breu da própria cabeça

Ave negra, de nunca mais eternamente
De tantos ais e de outros repentes
Vossos ovos são chocados
Nos ninhos de vossos parentes

Ave negra, tão fecunda entre as aves
Até Maria de vós engravidada
José enciumado inventou histórias
Para o vosso mau grado
E a lua empalideceu
Desceu pra trás das montanhas  amedrontada


Ave negra, maravilhoso eclipse
Que fascina todos os homens da Terra
Que tanta gente espera para vos ver um segundo
Trás o fim de toda vida
Vem e finda com o mundo

Ave negra, habitante dos sonos profundos
Guardiã dos infernos e dos defuntos
Que raja todas as guerras
Encoraja os inimigos
Também os torna cegos e mudos

Ave negra, não! em qualquer parte do mundo
Abortos, foras, phodas, derrotas, putrificações
Só por causa de vós são possíveis as salas de cinema
Os beijos por distrações
E as mortes por enfisemas

Ave negra, desagrega família
Pobres à polícia entrega
Mora nas cavernas, nas prisões, nos anus
Nas gargantas, entre dedos, entre pernas, nos caixões
Não negam as manchetes, nem as lanternas

Ave negra, irmã do buraco negro
Que tudo suga para o seu centro
Que é menor do que uma cabeça de agulha
Mas que tudo cabe dentro

Ave negra, figura em peste, em demônios, em legiões de gafanhotos
Deixai os homens atônitos e rotos
Figura em furacões, em secas, em catástrofes, em calamidades
Ave negra! rolai das imensidades

Ave negra, em galopes qual corcel selvagem
Paira sobre a Terra uma mancha preta
Petróleo derramado como sangue barato do Iraque
Deixai que a própria cova o imperador cavaque

Ave negra, o terror é perder a cor em suas asas
Bin Laden a seu favor toma os aviões
Que ele odeia as coisas rasas
Ave negra que com furor avassala

Ave negra, ave negra
Luciferina sem luz
Sem purpurina, só pus
Ave negra, ave negra
Desgraça carniça
A populaça atiça
Ave negra, ave negra
Cortina, narina de maçarico
Negro véu sobre o céu
Ave negra, ave negra
Fumaça dos canaviais
Dançarina de carnavais
Ave negra, ave negra
Senhora do nunca mais
Avançai nos umbrais
Ave negra, ave negra
Na frente dos olhos de Deus
Vós o cegais

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